do amigo imaginário

Quando eu era mais nova, tipo bem mais nova, eu tinha um amigo imaginário que me acompanhava por todo o lugar. Escola, quarto, banho, mesa. Onde eu estava, lá estava ele falando no meu ouvido coisas que me faziam rir sozinha, brincar sozinha, pular sozinha. Mas, peraí: se ele estava comigo eu não poderia estar sozinha, né? Enfim, minha infância foi rica. Brinquei, pulei, subi em árvore, bebi leite fresquinho, que tinha saído na hora, peguei fruta no pé, joguei futebol, vôlei, peteca, queimada, pique- esconde e tudo o mais que eu poderia ter direito. Mas esta fase foi depois.

Depois que o amigo imaginário foi embora, eu resolvi fazer amigos de verdade. A escola até que me ajudou, mas os arredores de casa eram mais interessantes. O bairro inteiro era nosso parque, inclusive o pátio da faculdade vizinha. Nós pulávamos a cerca de arames e brincávamos no lote, que abrigava, além do nosso campinho, o gado da vizinhança. Sim, tinha boi, vaca, cavalo. Acho que era só. E era muito divertido. Os tempos se passaram, do amigo imaginário eu nem me lembrava mais, dos outros me afastei, talvez, por afinidade. Chega um momento em que é natural afastar-se de pessoas que antes eram próximas. Não por problemas, ou raiva, mas porque naquele momento não faziam mais sentido. Então, como disse, o tempo passou, e passaram-se muitas pessoas. Percebo, hoje, que poucos resquícios permaneceram daqueles distantes anos. Mas, quem resolveu voltar, ou melhor, acordar, foi o amigo imaginário da infância. Não pensem que eu sou como aquelas irmãs do filme Atividade Paranormal, tenho até medo disso, hahahaha, quem voltou fui eu mesma, a olhar pra dentro de mim e das vontades que eu tive em tempos remotos.

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Recomecei a prestar atenção nas pequenas coisas do dia a dia, nas minhas pequenas vontades e brincadeiras. Antes, era através do walkman ou do radinho de pilha que eu viajava, para todos os mundos possíveis. Depois, me descobri em livros. Hoje, aos 31, me descubro em livros, discos, blogs, filmes e músicas que me fazem viajar e rir em cada ida e volta, para mim mesma, todos os dias.

Os tempos se passaram, mas, as vezes, me vejo espiando a mim, perplexa, diante do espelho. Como se fosse Dorian Gray atônito diante do retrato pintado, com um segredo guardado. O reencontro com o amigo imaginário me trouxe muitas recordações. Mas, a principal delas, foi se lembrar de mim, do que eu fui, do que eu sou, e fazer planos do que serei. Por enquanto, me guardo em filha, irmã e esposa. Amiga de poucos. Poucos mesmo. Numa mão só dá pra contar, e sobram dedos. Mas, principalmente, voltei a ser amiga do meu amigo imaginário. Das minhas vontades e pecados, que só eu e ele saberemos, pra sempre.

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