notas sobre o livro que ainda não li

vi que aquelas páginas amarelas carregavam muitos sentimentos inócuos.

mas, ainda assim, as páginas vazias revelavam o temor do autor diante delas, antes brancas.

encontrei os velhos textos, ainda escritos à mão, escondidos num canto da gaveta da velha cômoda encostada, no velho quarto.

eram planos de um futuro próximo, e próspero.

havia descoberto aquele lugar há pouco.

no canto de uma das folhas, uma mancha vermelha.

seria água?

poderia ser vinho.

uma lágrima, borrada em tinta.

ou uma gota de sangue.

naquelas páginas amarelas, não consegui descobrir muitas coisas.

era tudo muito vago.

era tudo muito cinza.

nos cantos das páginas amarelas letras minúsculas davam nota para as divagações.

nada de afeto.

percebia-se o desamor. a frustração.

tudo aquilo parecia errado.

não deveria estar ali, pois conhecia o caminho.

mas me perdi no meio das palavras cruzadas.

palavras não escritas.

aquele era meu mundo.

estava perdida em minha alma.

buscando consolo em páginas em branco.

as páginas amarelas eram meu caminho.

o velho quarto, que escondia a velha cômoda com aquela grande gaveta, que ao fundo havia escondido aquelas páginas amarelas, era eu.

as páginas brancas, minha vida.

os rascunhos nos cantos, minha vontade.

vontade verdadeira, de reescrever páginas.

ou de preenche-las.

páginas ainda em branco.

do livro que ainda não li.

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Alguma coisa aconteceu no meu coração

Sim. Aconteceu uma coisa muito boa. Aconteceu que eu conheci São Paulo, a maior cidade da América do Sul, com seus mais de 10 milhões de habitantes e suas línguas diversas. Sempre quis conhecer SP, a terra da garoa.

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Quando cheguei lá, na manhã de domingo dia 24 de abril, não acreditei, sério. Mas entendi o porque da grandiosidade. O porque de tantas músicas, poesias e artes inspiradas naquelas esquinas e “deselegantes” meninas. Cheguei na rodoviária, lotada. LO-TA-DA, porque era volta de feriado e muitas pessoas estavam ou chegando ou indo embora. Ainda bem que eu estava chegando e meus dois queridos amigos Lorena e André, do blog Par de Copas, foram me buscar, para começar esta aventura. Fui para SP para participar do Make Movie, como vocês podem perceber neste texto. Mas, claro, cheguei dois dias antes para dar uma voltinha pelas ruas e trilhos desta cidade.

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Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
(…)
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso*

Naquele domingo, me encantei com o bairro Liberdade. Lá se encontra a maior colônia japonesa fora do Japão. Estava acontecendo uma feira e, por isso, estava muito movimentado. Havia barracas de comida, plantas, artesanato.

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11“Querido, é mais lindo juntarmos dinheiro e embarcarmos pro Japão” Tulipa Ruiz.

Depois, nós fomos caminhando até uma praça, que fica no topo da avenida Paulista, a principal da cidade, que nos domingos é fechada e parece mais um parque, lotada de pessoas praticando esporte, ouvindo música e curtindo a tarde de domingo.

Na praça, citada anteriormente, estava acontecendo um encontro de food trucks e nós  resolvemos experimentar a comida de um deles, do Só Coxinhas!! DE-LÍ-CIA. Experimentamos quatro tipos de coxinha, dois sabores doces (nutella e brigadeiro) e dois sabores salgados (frango e cream cheese com alho poró).

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Bem, depois de todos estes nutrientes extras, partimos para o passeio na avenida Paulista. Achei incrível. Tudo. Foi um dia muito divertido. O que mais me encantou foi a diversidade, de pessoas, línguas, gostos, de possibilidades.

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
(…)
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva*

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Nas andanças pela Paulista, ainda visitamos uma feira de antiguidades que acontece na parte de baixo, no vão, do MASP (Museu de Arte de São Paulo).

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Nos dias que seguiram, ainda conheci as redondezas da Vila Anastácio, onde fiquei hospedada. Andei de trem, metro, caminhei. Muito. É assim que vivemos as verdadeiras experiências. Não dá pra conhecer nenhum lugar, ou alguém, de forma verdadeira se nunca ficar frente a frente. Foi uma linda experiência. Vivi por cinco dias quase como uma paulistana, trocando de vagões, caminhando pelas ruas de SP e sentido um frio, digo um FRIO, gigante, porque as temperaturas baixaram muito na quarta e quinta-feira.

É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João*

* Sampa, Caetano Veloso

20Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas. Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços”*

Está tudo guardadinho na memória, e no coração. Que agora tem algumas boas histórias para contar e relembrar. E eu, boa mineira que sou, pude curtir Sampa numa boa e passear na sua garoa.  Faltou só conhecer a famosa esquina. Mas este passeio ficará para uma próxima viagem.