Filme: Como Nossos Pais

Assisti ao filme no sábado (2) e resolvi esperar para ver se escrevendo hoje (4), dois dias depois, as emoções já haviam cessado, na tentativa de escrever um texto menos emotivo. É impossível. Como nossos pais é o tipo de filme que entra e nunca mais sai. Não sai dos olhos, dos ouvidos, da pele, do pensamento.

Quando lia os inúmeros textos falando da grandiosidade do filme e de como a Rosa (Maria Ribeiro) é todas nós, eu não poderia prever o real sentido e como o filme me afetaria após sair da sala de cinema.

Nós fomos (eu e meu marido) na sessão das 14h, na sala 1, do cinema do Shopping Cidade, que fica no centro de BH. Precisei ir até lá porque o cinema de minha cidade resolveu não exibir o filme. Problemas do interior que me deixam extremamente chateada, assim como a falta de espaço nos grandes canais que se dizem especializados em cinema, no Youtube. O cinema nacional é grande e é ótimo, não entendo esta falta de espaço e olhar.

Enfim, no momento em que foram apresentados os créditos iniciais e, em seguida, a aparição de Clarice (Clarisse Abujamra), me mostravam que a experiência seria única.

E foi.

Foi lindo, sincero, emocionante, relevante. A Rosa é real e fascinante.

Li vários textos e assisti a alguns vídeos, inclusive com entrevistas do próprio elenco, sobre o filme, e a conclusão clara que pude ter assim que saímos da sala de cinema é de que trata-se de um filme sobre o amor. Sim, amor.

Como Maria Ribeiro bem disse ao receber seu prêmio de melhor atriz em Gramado, o filme não se restringe ao feminismo, trata-se de um filme humanista, “de pessoas que se amam e que não desistem umas das outras”. O filme é sobre o amor e de como ele redime as pessoas. Não sei se redimir é a palavra, mas saí do cinema de certa forma mais leve. Laís nos deu um presente em forma de longa-metragem.

Como Nossos Pais (11)

 

Laís Bodanzky é minha diretora preferida no Brasil desde sempre. Dela, já figuraram nesta lista de filmes aqui do blog Bicho de sete cabeças e As melhores coisas do mundo. Laís ainda tem outra produção, intitulada Chega de Saudade.

Lendo o título dos quatro longas-metragens da diretora, o que me chama atenção é a relação deles com músicas. Bicho de sete cabeças é uma música de Geraldo Azevedo. Chega de Saudade, de Tom Jobim. E Como nossos pais, na voz de Elis, do gênio Belchior, é a que mais me emociona.

E agora não consigo não ouvir a música e não me emocionar ainda mais.

Outra coisa interessante no cinema produzido por Bodanzky é o drama real. Não sou crítica de cinema, então não sei os termos corretos, mas vou falar aqui da maneira que sinto, assim como faço com todos os filmes. Assim como já comecei escrevendo este texto.

Li, numas das inúmeras entrevistas de Maria Ribeiro sobre o filme, uma frase que, acredito, resuma bem meu sentimento sobre as produções de Laís: “São pequenos dramas que não são pequenos para quem está vivendo” (Jornal O Globo – 20/8/2017). É exatamente isso. Laís Bodanzky faz um recorte e coloca luz sobre temas que passam despercebidos por outros diretores. É um cinema leve, mas ao mesmo tempo pesado, e super coerente com nossos tempos, ou em qualquer outro.

Como Nossos Pais (3)

Ainda não assisti ao Chega de Saudade, por isso farei um pequeno comparativo sem a presença dele.

As relações familiares, nos três longas que eu já assisti, principalmente entre pais e filhos, estão sempre em primeiro plano, não esquecendo dos personagens principais e seus dramas particulares.

Se em Bicho de sete cabeças, um pai autoritário resolve internar o filho para tentar “curá-lo” do uso das drogas, em As melhores coisas do mundo, mostra quão difícil a dissolução de uma família pode ser, sobretudo numa fase da vida em que tudo é multiplicado à milésima potência. Todos os sentimentos são maiores, todas as possibilidades são infinitas. O bullyng, o desamor e a redenção figuram neste roteiro.

Os filmes de Laís Bodanzky já me faziam ter esperança. Depois da sessão das 14h de sábado, eu renovei todas elas. Renovei as esperanças no cinema, em mim, na vida e tudo isso graças a Rosa, que, inclusive, é como é conhecida minha mãe, mas isso não vem ao caso.

Como nossos pais é, definitivamente, o filme que mais me emocionou há tempos. Há tempos não era tão tocada e há tempos um filme não saia de minha cabeça.

E chega a ser difícil encontrar palavras para descrevê-lo. O que eu mais queria era ter passado mais tempo com a Rosa. Eu preciso encontrá-la novamente. Quero repassar todas as cenas, todos os diálogos, todos os enquadramentos, cores e luzes.

A Rosa, a supermulher, está num limbo sem saída e, aos poucos, se vê despedaçada e precisa buscar identidade nas várias faces, nos vários lados que assume em seu dia a dia. Rosa é filha,  irmã, esposa, mãe, profissional, amante, amiga. Mas, acima de tudo, é Rosa. No filme ela precisa se encontrar para reaver todas as suas ramificações, e ficar bem.

Maria, ou melhor, Rosa, é forte, mesmo parecendo frágil, e mesmo sem chão, encontra apoio para se reerguer. E se reergue a partir da pessoa que lhe causa a primeira crise apresentada no filme. A pessoa que todos nós temos ao nosso lado.

Saí da sessão com o mesmo sentimento que trago dentro de mim até agora e eu, sabendo de minhas obsessões, sei que ele vai demorar a passar, se passar. Como nossos pais mexeu comigo e vai mexer com você também, seja você quem for. E você vai refletir sobre sua vida, suas escolhas e sobre seu verdadeiro papel no mundo e na vida das pessoas que você escolheu pra si. Isso inclui você também.

Como Nossos Pais (9)

Escrevi tanto e temo não ter dito nada. A única palavra que é capaz de expressar o que sinto é obrigada.

Obrigada Laís, Maria, Clarisse. Obrigada Paulo, Felipe e Jorge.

Obrigada por me apresentarem ao filme da minha vida!

 

***

Filme: Como Nossos Pais

Direção: Laís Bodanzky

Ano de lançamento: 2017

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