Dia 41

Durante grande parte da minha vida eu nunca presenciei, ou sofri, algum tipo de preconceito. Quando falo preconceito refiro-me a cor da pele. Da minha pele, no caso.

Sou parda – mãe branca, pai negro.

Mas, de maneira velada, ele sempre existiu quando alguém sempre falava do meu cabelo ou quando se referiam a um serviço ruim como serviço de preto. Eu ouvia aquilo mas não dava importância.

Mais tarde, quando comecei a consumir mais produtos, ao entrar em determinadas lojas, os vendedores, em muitas vezes, não me atendiam. Pensava, antes, que talvez fosse por conta do movimento. Hoje, acredito muito que não era isso.

Quando entrei na faculdade, em 2003, ainda não havia reserva de cotas. Informei a verdade – parda – sem me preocupar se isso seria levado em consideração.

Passei no vestibular, fiz a faculdade, etc.

Talvez, por isso, torci o nariz quando começaram a brotar cotas para tudo e qualquer coisa. Achava desnecessário. E o pior, falava alto sobre isso, defendendo este ponto de vista. Era meu direito não concordar.

Enfim, hoje, tempos depois, me arrependo.

Me arrependo porque a segregação continua todos os dias e mais velada do que nunca. As pessoas, a maioria delas, se dizem sem preconceitos, mas essa não é uma verdade completa.

Eu costumo perceber o preconceito duas vezes: sou afro e mulher.

São muitos os olhares torcidos. Mas, eu nunca prestei muita atenção, para falar a verdade.

Prefiro relevar e passar por um dia mais leve.

Aí anteontem, na segunda, eis que brota em minha timeline do Twitter o tal do anúncio da Dove. Na altura em que o vi, já havia se proliferado.

Esta foi minha reação de imediato:

Achei de uma indelicadeza gigante, gritante.

E é muito isso, são tantas etapas até a produção ou a veiculação de uma publicidade que eu não sei como em pleno 2017 este tipo de coisa ainda aconteça. Como assim? Como uma negra ainda aceita este tipo de trabalho? Isso não deveria ser permitido, mas a escolha é de cada um. Eu demorei à entender a importância de falar sobre isso e abrir os olhos para isso.

leia o texto escrito pela modelo ou leia o texto publicado no G1

Mais tarde, li o texto que atriz norte-americana Danielle Brooks escreveu para a Lenny e continuei refletindo e isso me deu uma tristeza profunda. Talvez, neste tempo todo, o golpe sofrido pela Dove tenha servido para limpar meus olhos diante de tudo que tantas pessoas sofrem todos os dias. Minha pele, e a pele de tantas, não é suja. É disso que fala o texto de Brooks. Isso me lembrou daquela história de que Deus criou um lago para que os homens se lavassem e os brancos puderam usá-lo primeiro porque eram bons trabalhadores. Já os negros chegaram depois, foram considerados preguiçosos e, por isso, foram lavadas apenas as palmas das mãos e a sola dos pés. Sendo estes os únicos lugares “limpos” dos negros. (Assista este vídeo)

É triste. Muito triste.

Esta história toda chega a me dar um nó na garganta, é sério. Me senti ofendida.

Mas, a vida segue, um dia de cada vez. E a luta também, sempre.

abre-black-power-lise você souber de quem é a ilustração, me avise para creditá-la 🙂
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