• Um romance sobre amar a si próprio •

Este livro é intenso. É romance. É autoajuda. É amor. É redescobrimento.

“Exausta, me sentei na grama, coloquei a cabeça entre as pernas e chorei mais profundamente ainda. ‘Evite ter certeza daquilo que você desconfia’ my ass. Minha vida tinha acabado. Eu morri em Nova York numa manhã ensolarada de sábado.” (p. 89)

O livro, que é dividido em três partes – A morte, A aventura do descobrimento, Renascer – conta a história de uma mulher de 44 anos que se vê perdida após um relacionamento de quase 10 anos. E resolvi lê-lo após a indicação da Maria Ribeiro no Instagram, em que ela diz, num trecho: “Triste, lindo e tão próximo de mim”. Demorei quase um ano para iniciar a leitura. Mas se tem algo em que acredito é que as coisas acontecem no tempo que precisam acontecer. Não somos nós que escolhemos os livros, os livros nos escolhem e eu me entreguei a leitura deste livro num momento em que precisava encontrar forças dentro de mim mesma e, acredito, tem dado certo, ou quase.

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A protagonista do livro não se apresenta em nenhum momento. E ele é todo narrado em primeira pessoa. Subentende-se, então, que trata-se de Milly, nome da autora. Milly é jornalista. No livro e na vida. É escritora. Após desconfiar de uma traição, ela resolve deixar Nova York e retornar ao Brasil. E de lá para cá, ela narra todos os maus momentos que a fizeram ter a clareza para se ver.

“Força. Momentos difíceis, de grande tristeza, resultam em transformação, evolução. Amores de verdade se libertam.” (p. 13)

Prestar atenção nas minúcias do dia a dia, na banalidade do bom dia, no beijo de despedida. Tudo isso é posto à prova nas páginas do romance. Mas, entre tantos fazeres, olhar para si parece ser a tarefa mais difícil. Após a volta para o Brasil, a protagonista percebe que todas, ou a maioria das decisões tomadas por ela, precisava da aprovação de outras pessoas: sua mãe, sua irmã, seus amigos, sua esposa.

Este é um dos problemas da narradora, porque ela não tinha trabalho fixo, a maioria das despesas eram pagas por Tereza, sua, agora, ex-mulher, por isso, também, ela se viu perdida, percebendo que não havia construído nada para ela, apenas para a relação. A partir desta percepção começa sua reconstrução.

Quando volta para São Paulo, ela fica por um tempo na casa da irmã, que tinha seis filhos, mas logo que chega se encontra com uma amiga que a convida para fazer um retiro na Amazônia. Ela vai e, no início, ela julga cada uma daquelas pessoas que ali estão. Neste momento até eu comecei a pensar: pessoas ricas reclamando. Inclusive a própria, se não tinha fundos, como conseguiu grana para isso? Por mais que tenha pago no cartão, uma hora a conta chega. Mas enfim, depois levei alguns tapinhas, com esse aí:

“O problema do preconceito é que ele cega, ofusca e impossibilita enxergarmos a humanidade no outro – e não existe violência maior do que não reconhecer a humanidade no outro.” (p. 117)

E são muitos os nossos preconceitos, né?

Num determinado momento, ela conversa com uma das pessoas responsáveis pelo retiro, para saber porque deveria ser importante mudar a vida daquelas pessoas, já que o sofrimento maior está entre as classes mais baixas, que jamais teriam condições de estarem ali, naquele lugar. A explicação é que, para mudar a base, é importante que as pessoas que ocupam os mais altos cargos tenham a consciência de igualdade e empatia.

Achei interessante.

“Uma vez um professor me disse que privilégio gera oportunidade e oportunidade gera responsabilidade e responsabilidade significa questionar o status quo, sistemas impostos, técnicas de dominação. Em outras palavras, se você é um privilegiado, como eu sou, seu dever é não calar.(…) A caridade é vertical e a solidariedade é horizontal, são coisas muito diferentes. A caridade carrega embutida uma demonstração de poder e superioridade, mesmo aquela feita com a melhor das intenções, e solidariedade é amor e envolvimento.” (p. 128)

Depois de um mês no retiro (não me lembro exatamente o tempo), ela voltou para São Paulo e ao conversar com uma outra amiga (sua ex, que se recuperava de um tratamento contra um câncer) esta lhe indicou uma outra viagem, agora para o sul de Minas.

Esta é a parte em que tudo faz sentido para ela. Tudo o que acontecera até ali, desde o rompimento. Ela começava a se libertar, não do amor, mas da afirmação do outro para que ela se tornasse alguém.

“Eu levaria um tempo e muitas lágrimas para entender que a verdadeira liberdade está em educar o pensamento” (p. 65)

No fim das contas, é tudo sobre isso: amar primeiro a si para conseguir se entregar inteira e livremente ao outro. O negócio é descobrir como fazer funcionar. Cada pessoa é um mundo inteiro e dominar esse mundo não é fácil. Não há como descrever o sentimento que esse livro transmite. A falta do nome da protagonista talvez seja proposital, afinal de contas, a narradora, o narrador, pode ser qualquer um que o leia. Este é um tipo de livro que gera transformação. As histórias vão sendo contadas de uma forma que você passa a refletir sobre você, suas relações e seu amor próprio.

Então, sem mais, apenas leia e se descubra nas 252 páginas.

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***

Livro: O ano em que morri em Nova York

Autora: Milly Lacombe

Editora: Planeta (1ªed.|2017)

 

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