depois a louca sou eu 2

Mês passado, eu fui na Bienal Internacional do Livro de São Paulo e tive a oportunidade de assistir a uma mesa muito foda, com Maria Ribeiro, Tati Bernardi e Fernanda Young. Eu já conhecia as produções da Maria e da Fernanda, mas a Tati, até então, eu só conhecia por nome. Nunca havia lido nada, apesar de já ter assistido a série e aos filmes Meu Passado Me Condena, mas eu não sabia que o texto era dela. Então, acho que eu a conhecia também, né? Enfim, você entendeu onde eu quero chegar. Na semana da bienal, sem saber que eu iria ao evento, comprei dois livros da autora: Depois a louca sou eu e Homem-objeto e outras coisas sobre ser mulher.

livros tati

Nestes dois livros, a Tati escreve crônicas. No segundo – que ainda estou lendo – ela apresenta uma coletânea  de crônicas que ela publicou no jornal Folha de S. Paulo. E, como vocês bem sabem, acho – se bem que nem devo ter comentado isso por aqui –, eu tenho lido e pesquisado muito sobre crônicas. Eu gosto muito deste gênero literário e, portanto, ter me encontrado com os textos da Tati foi uma grata surpresa.

Em Depois a louca sou eu, Tati Bernardi narra, com muito humor, sua relação com a ansiedade. Em suas crônicas, ela descreve suas crises de pânico, seus medos, o vício nos remédios de tarja-preta e muito mais. Dá certa aflição em ler seus relatos, porque eu sou uma pessoa muito ansiosa e me identifiquei muito com vários trechos do livro. Logo em suas primeiras páginas ela conta que foi por medo da queda de um avião em que estava, que ela fez uma promessa: se sobrevivesse, escreveria um livro sobre medos.

Sofrer é de uma arrogância egocêntrica sem limites. Tenho medo de dobrar a esquina de casa. Tenho medo de fazer aniversário. Tenho medo de ser mulher porque mulher é toda aberta a fungos e promessas. Tenho medo de estarem rindo do quanto eu sou feliz quando alguém me abraça e eu me largo um pouco. Minha cabeça pesa quilos demais para o meu pescoço. Alguém, por favor, só me segura um pouquinho? Tenho medo de acordar. (p. 94) 

Dos primeiros sinais na infância até o recesso no uso dos remédios, vezes séria, mas sempre com um humor acertado, Tati olha pra si e se abre contando suas fragilidades, o que gera proximidade. Afinal de contas, qual humano não tem problemas? Talvez não os mesmos apresentados por ela, mas o interessante deste livro é poder se colocar e se ver nas situações apresentadas e, dessa forma, sentir ao menos um pouco do sofrimento de quem vive com medo e sob o efeito de drogas lícitas.

Ninguém escapa dessa vida. Nem quem medita. Nem quem compra a maior e melhor coleira do universo. Ninguém escapa. Nascemos bicho, morremos bicho e passamos a vida com medo de saber que bicho somos. (p. 132)

Vale a pena ler a Tati com atenção. Ela, certamente, está entre as grandes escritoras desta geração.

depois a louca sou eu 1

***

Livro: Depois a louca sou eu

Autora: Tati Bernardi

Editora: Companhia das Letras (1ª ed./2016)

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