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Fiquei bem feliz ao terminar de ler este livro e calhar de escrever sobre ele justamente na semana da criança. Hoje, dia 12, é o dia dedicado a essas pequenas criaturas e o livro trata justamente deste universo.

Em Nu, de botas, Antonio Prata narra, por meio de crônicas, as lembranças de sua infância. Quem já conhece os textos do escritor, publicados semanalmente, salvo engano, na Folha de S. Paulo, conhece bem o quão perspicaz ele pode ser.

Das brincadeiras e aventuras, passando pela separação dos pais, e chegando até a descoberta do amor, são muitas as linhas e nuances descritas por Antonio, que narra um período vivido no início dos anos 1980 e que, com certeza, sem as parafernalhas tecnológicas de hoje em dia, surtiu efeito na mente criativa deste que é um excelente escritor desta geração.

Eu achei estranho, nunca tinha pedido irmãzinha nenhuma e tampouco entendi como aquele bebê – que não falava, não andava e nem sabia futebol – poderia ter para mim alguma utilidade. Se houvessem me consultado eu teria pedido uma vitrolinha, daquelas à pilha, que tocavam discos coloridos; mas como nunca me perguntavam antes de fazer as coisas, tive que aceitar a nova realidade: dividir meu quarto e meus pais com uma irmãzinha.” (p. 70)

Para além dos sentimentos, as narrações das experiências descritas por uma criança de quatro ou cinco anos, no início do período de alfabetização chega a ser nostálgico. Como algo tão simples, como a formação de sílabas e depois de palavras e depois de frases – hoje algo tão corriqueiro – pode mexer assim com os sentidos e com a cabeça de uma criança. É um desafio imenso. Fora os outros conflitos, por nós, adultos, tantas vezes minimizados e, para eles, sentidos e percebidos como problemas reais. E o são, na verdade.

Dentre as inúmeras estranhezas do mundo, mais esta: havia coisas com vários nomes e nomes com várias coisas. 

Exemplos de coisas com vários nomes:

Carro, automóvel, Brasília.

Privada, vaso, trono.

Rosto, cara, face.

(…)

Não bastasse essa confusão, havia também coisas com nomes que podiam ser pronunciados em certos lugares, mas em outros não. Bumbum, por exemplo, estava liberado por toda parte. Bunda era permitido na casa do meu pai e da minha mãe, mas não na escola ou na casa da minha avó. (p. 58 e 59)

Enfim, é um livro gostoso de ser lido, a escrita de Antonio Prata prende o leitor do início ao fim e, por conta disso, as 140 páginas passam num piscar de olhos.

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***

Livro: Nu, de botas

Autora: Antonio Prata

Editora: Companhia das Letras (1ª ed./2013)

 

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2 comentários em “Livro do mês: Nu, de botas

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