Livro do Mês: Sejamos todos feministas

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O livro é curto. São cerca de 40 páginas. É uma adaptação de uma palestra que a autora, Chimamanda Ngozi Adichie, deu em dezembro de 2012, no TEDxEustom, uma conferência anual com foco na África.

Chimamanda é Africana e grande parte de seus escritos baseiam-se em suas experiências e realidade de seu país e continente. Ela é nigeriana.

O que é tratado no livro, de leitura facílima, é o que tantas pessoas vem explicando há muito tempo. Confesso que, quando eu li, eu vi mais do mesmo. Mas, no fim das contas, não é. Lembrando que a palestra foi dada em 2012 e sua transcrição lançada em 2013.

Quando eu digo mais do mesmo, talvez seja porque já estou tão imersa nesta temática, já li tanta coisa sobre isso, que me pareceu que, de certa forma, não seria possível o livro me acrescentar algo novo.

Trata-se do que é básico: feminismo nada mais é do que homens e mulheres tendo os mesmos direitos e o mesmo espaço. E é necessário entender homens e mulheres de forma ampla.

Ao longo da palestra, ela vai tirando camada por camada os preconceitos que viveu e como as feministas são tratadas, tantas vezes, de maneira pejorativa e que existe uma certa discriminação no modo de tratá-las e descrevê-las.

Ela, africana, conta vários momentos de sua vida que foram essenciais para que ela pudesse chegar às reflexões que a tornou naturalmente feminista. Como por exemplo, a vez em que foi a melhor da turma e que estava apta a ser a monitora, o que não pôde ocorrer já que, mesmo que ela fosse melhor em tudo e um homem, no caso um menino, fosse o segundo, ele seria o monitor.

São valores e questões que precisam ser explicados desde cedo, e sempre, para meninos e meninas: mesmo espaço, mesma capacidade, mesmos direitos. A diferença de estruturas biológicas e hormonais é o máximo de diferenças possíveis de serem encontradas.

Existem mais mulheres do que homens no mundo –  52% da população mundial é feminina –, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. A já falecida queniana Wangari Maathai, ganhadora do prêmio Nobel da Paz, se expressou muito bem e em poucas palavras quando disse que quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos. (p.20)

Vale a leitura e a reflexão. Mas, para além da reflexão, é importante buscarmos, de fato, a transformação. Não pense você que apenas os homens tem pensamento e atitude machista, pelo contrário, ele está implícito em inúmeras atitudes de diversas pessoas no dia a dia.

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Livro: Sejamos Todos Feministas

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Tradução: Christina Baum

Editora: Companhia das Letras (1ª ed./2012 | Brasil: 2014)

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Livro do Mês: Feliz Ano Novo

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É um livro violento, cru e machista em muitos momentos. E assusta pela realidade, em muitos outros.

Feliz ano novo é o um livro do escritor mineiro Rubem Fonseca, lançado originalmente em 1975 e que nos apresenta 15 crônicas, ou contos, sobre as discrepâncias sociais, violência, sexo, erotismo, com uma pitada de humor negro, que corriam na mente do autor, considerado um dos principais prosadores do país.

Os textos desta coletânea não conversam entre si, mas, de certo modo, se parecem por conta dos seus personagens, em sua maioria homens, com hábitos estranhos e vivendo suas experiências sozinhos. Não tão sozinhos, já que vez ou outra aparecem outras pessoas, que passam por “salvadoras” ou que os ameacem, fazendo-os saírem do lugar de acomodados.

Já foi dito que o importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita” (p.122)

Enfim, é um livro que vale a pena ser lido por ainda, 43 anos depois de seu lançamento, ser muito atual pelas histórias retratadas.

Gostei, principalmente, de dois contos: Agruras de um jovem escritor e O pedido. Um terceiro também se destaca. É o último do livro: Intestino Grosso. Tanto o primeiro quanto o último citados falam do processo da escrita. Agruras de um jovem escritor me lembrou de A hora da estrela, de Clarice Lispector, já o Intestino Grosso chama a atenção pela frieza contida na mente de muitos escritores, que muitas vezes “pensam que sabem de tudo”, e por isso subestimam os “não-escritores”.

Uma curiosidade deste livro à época de seu lançamento: em plena ditadura militar, ele teve a publicação e a circulação proibidas em todo o território nacional, sendo recolhido pelo Departamento de Polícia Federal sob a alegação de conter “matéria contrária à moral e aos bons costumes”.

Veja aqui os 10 livros que marcaram a carreira do autor

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Livro: Feliz Ano Novo

Autor: Rubem Fonseca

Editora: Nova Fronteira (ed. Especial/2017)

Livro do Mês: O Livro Dos Ressignificados

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Acredito ser um excelente livro para o janeiro de qualquer ano.

É um livro que nos apresenta novos significados, de palavras muito ou pouco usuais.

Ele, João Doederlein, o @akapoeta, ressignifica, para além de palavras, emoções, sentimentos. Ele dá novo sentido. E isso acaba nos ressignificando também.

O autor é jovem e desde cedo já gostava de “brincar” com as palavras. No Instagram ele conseguiu dar vasão e ganhou fama.

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Esta nova forma de escrita encontrou novos leitores, que buscam, talvez, textos ágeis e com mensagens de fácil digestão. Isso, de forma alguma, minimiza o livro. Pelo contrário, sou a favor da leitura. Sou a favor do consumo do livro. Então, se ele, o autor, tem conseguido fazer com que as pessoas, totalmente viciadas em smartphones e redes sociais, parem um pouco para pensar nas palavras e seus (re)significados, sobretudo se isso atrai novos leitores, deve ser, de certa forma, aplaudido.

Este não é necessariamente um livro de leitura corrida, mas sim de consulta. É quase um dicionário de sentidos. Vale a pena a leitura e a consulta.

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Livro: O livro dos resiginificados

Autora: @akapoeta (João Doederlein)

Editora: Paralela (1ª ed./2017)

Melhores 2017: Livros

Chegamos ao momento da escolha das melhores publicações deste ano do blog. Ao longo desta semana, teremos ainda a lista de melhores discos e melhores filmes.

Começarei listando os cinco melhores livros que li em 2017, ano em que me desafiei a ler mais e acredito que tenha conseguido alcançar minha meta: ler o mínimo de um livro por mês. No fim das contas, a média foi um pouco maior que esta. Sei que é uma média baixa ainda, mas, com o hábito adquirido, tenho certeza que aos poucos ela aumentará.

Então é isso! Neste momento estou lendo Cem anos de solidão e quero muito que ele seja o primeiro de 2018! Tomara que consiga terminá-lo até dia 9 de janeiro, que é quando escreverei sobre o primeiro ‘livro do mês’ de 2018.

Que em 2018 possamos ler e viver mais histórias incríveis!!

Aproveitando: qual foi sua melhor leitura em 2017?

Até amanhã! ♥

Livro do mês: A coragem do primeiro pássaro

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O livro deste mês, o último do ano, é um livro de poesia. E é um livro ao mesmo tempo intenso e leve, mas com desabafos sufocantes. Difícil entender, né? Mas saí com esta sensação ao fim da leitura, que foi muito rápida.

O livro, que possui pouco mais de 50 páginas, flui ao mesmo tempo que nos paralisa diante do fim. Talvez por isso o tenha escolhido para encerrar estes primeiros doze meses de livros aqui no blog. Digo primeiros doze, porque foi neste ano que criei a categoria livro do mês e consegui cumprir bem. Você concorda?

Deixe-me voltar ao livro.

Trata-se de um livro sobre o fim de um relacionamento. Cada palavra, cada verso nos remete ao íntimo do sentimento que acaba. Da relação que se deteriora, da raiva que toma conta e, no fim das contas, da vida que precisa seguir.

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A coragem do primeiro pássaro fala de recomeço. Sim, após o fim tem sempre uma nova vida, né? Depois das aflições as esperanças se renovam, ou ao menos aquietam o coração tantas vezes machucado.

André Dahmer, que também é desenhista, consegue fazer lindos traços com suas palavras escolhidas minuciosamente, nos fazendo pensar sobre compartilhamento e perda.

Mas, é um livro de poesia, né? As interpretações podem ser várias, mesmo com palavras tão certas.

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Até o primeiro livro de 2018!! 🙂

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Livro: A coragem do primeiro pássaro

Autor: André Dahmer

Editora: Lote 42 (1ªed. 2015)

 

Livro do mês: A hora da estrela

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Que livro bom.

Que livro impactante.

Que livro triste.

Eu havia programado a leitura d’A Hora da estrela para o ano que vem, mas resolvi antecipar a leitura, porque o livro é bem curtinho – são apenas 87 páginas – e, por isso,  flui muito bem. Foi o primeiro livro que li da Clarice Lispector e me arrependi de não ter lido antes.

Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevi o que estou escrevendo. (p. 11)

Trata-se da história de Macabéa, uma retirante nordestina que muda-se para o Rio de Janeiro após a morte de uma tia, única referência de família que ela conhecia.

O livro é narrado por Rodrigo S.M., que acompanha a vida quase vazia e invisível de Macabéa, que trabalha como datilógrafa, gosta de ouvir programas de Rádio e acredita que tudo o que acontece com ela, sejam coisas boas ou ruins, são por conta de sua sina, escrita por Deus.

Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. (p.24) 

É, de certa forma, um livro metalinguístico, que mostra a aflição do escritor diante da obrigação da escrita, da criação de histórias, do cuidado e da preocupação gerados por um, até então, desconhecido personagem.

Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades. (p.41)

Abre parêntese. Quando estava na faculdade de Jornalismo, numa das aulas de Jornalismo Literário – acho que era este mesmo o nome da disciplina – o professor havia nos passado uma atividade, que era de fazer um texto sobre uma coisa qualquer. Eu não conseguia ter inspiração em nada para escrever. O único insight que consegui foi o de escrever sobre a angústia da escrita. Sobre a angústia da folha em branco. Foi um dos textos mais legais que consegui escrever – e que infelizmente está perdido – e o li em sala, assim como todos os demais estudantes. Ao fim da leitura o professor, sorrindo, me disse que meu tipo de escrita estava parecido com o de Clarice Lispector. Me senti feliz, mesmo sem entender, já que ~vergonha gritante~ ainda não a conhecia. Hoje, quase dez após ter finalizado minha graduação, ao terminar a leitura de A hora da estrela sabia que ele estava se referindo a este texto. Me senti feliz. Fecha parêntese.

Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém, todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha. (p. 69)

Não vou contar muito da história, porque, acredito, este livro precisa ser sentido. E cada um terá uma compreensão. Ao fim da leitura eu me surpreendi, de certa forma, e fiquei triste, principalmente por este ter sido o último livro lançado por Clarice. Aliás, ele foi lançado após a morte da escritora, o que me deixou ainda mais intrigada com o tipo de narrativa escolhida por ela.

Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. (p.70)

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Livro: A hora da estrela

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco (1ª ed./1977)

Livro: #GIRLBOSS

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Li este livro logo que terminei de assistir a série da Netflix.

A série é muito boa, divertida, dinâmica. Parece que o papel foi escrito para Britt Robertson. É fácil acreditar que ela é a Sophia. E a certeza veio principalmente depois da leitura do livro.

Trata-se, basicamente, de um livro contando como Sophia Amoruso criou, do zero, o site Nasty Gal. À época do lançamento do livro (2014), Sophia ainda era a CEO do site.

A narrativa beira a autoajuda, mas é muito interessante a forma como ela conta sua trajetória. Entre um capítulo e outro, depoimentos de outras mulheres responsáveis por grandes negócios vão aparecendo, o que é muito importante porque, além de reforçar tudo o que Sophia apresenta, nos mostra que é possível alcançar o almejado sucesso, sobretudo financeiro, quando se tem, para além de coragem, conhecimento e disposição.

Abandone qualquer coisa da sua vida e dos seus hábitos que possa estar prendendo você. Aprenda a criar as suas próprias oportunidades(…)A ação favorece a sorte” (p.22).

Para Sophia, Girlboss é toda mulher capaz de “tocar” não são o próprio negócio, mas a própria vida.

Eu, que vivo na corda bamba entre querer um negócio meu e ter um trabalho formal, me senti impulsionada a tentar mais, a sair da zona de conforto e produzir minhas próprias ideias.

O livro é lotado de clichês. Mas, não é à toa que clichês se tornam clichês. É importante que saibamos conhecer nossas potencialidades e reconheçamos nossas fragilidades. Da execução de uma ideia simples ao cuidado com o dinheiro, o livro vai nos apresentando como Sophia se tornou, em 2010, uma das pessoas com menos de 30 anos mais ricas do mundo.

Descubra o que você ama fazer e aquilo que é ótima, depois tente pensar em como viver disso! Não tenha medo” (p.105).

Um trecho interessante do livro, pelo qual me identifiquei, é quando ela fala dos introvertidos, ou daqueles que não se encaixam bem em determinadas situações. Ela diz que grande parte das pessoas e empresas tendem a dar mais valor aos extrovertidos, por parecerem mais inteligentes. Mas nem sempre é assim.

Os introvertidos são naturalmente mais sensíveis porque não precisam de um monte de dopamina, o neurotransmissor da “sensação boa” que o cérebro produz em resposta a estímulos positivos. (…) Os introvertidos também são mais propensos a prestar atenção em detalhes pequenos.” (p. 142-143)

Está aí uma verdade. Sou apegada a detalhes.

Nesta mesma leva ela fala da superestima ao networking. Tenho uma dificuldade gigante em conversar com estranhos, mesmo sendo da mesma área de atuação ou que possa vir a ser um possível parceiro. Não sei jogar conversa fora.

Mas, porque Sophia falaria tanto deste perfil que, aparentemente ou a princípio, podem não sere “percebidos como alguém com potencial de liderança”? Porque, ela conta, só começou a trabalhar com uma loja virtual por não querer contato com pessoas e preferir trabalhar sozinha. E olha onde ela chegou.

Enfim, os ensinamentos que consegui absorver deste livro foram:

  • ter uma boa ideia;
  • saber que você consegue executá-la bem;
  • persistir no caminho, mesmo diante das dificuldades;
  • não focar apenas no faturamento;
  • e, por fim, acreditar que aquilo é um trabalho de verdade.

Foi isso que aprendi com este livro.

Você tem que ter confiança e convicção suficiente para seguir com toda força mesmo se as cosas não derem certo. Para nós, que corremos riscos, é algo inerente ao trabalho. Se falharmos, levantamos e tentamos de novo. Simplesmente fazer é recompensa suficiente.” (p.204)

#Girlboss é um ótimo livro para quem pensa em empreender, ou para quem quer começar qualquer tipo de projeto, não necessariamente financeiro. O livro nos impulsiona. Sophia faz isso muito bem. É como uma mola propulsora. E tem dias, principalmente naqueles que precisamos de coragem, que achamos que nada do que fazemos faz sentido, este livro nos dá a força necessária. E uma das coisas mais importantes que ele trouxe é: não existe fórmula mágica. Cada um tem o seu estilo e absorve as experiências contadas por Amoruso de uma forma. O importante é se conhecer e conhecer suas potencialidades.

Se você estiver sonhando grande, #Girlboss, não desanime se tiver que começar pequeno. Foi o que funcionou para mim” (p. 213).

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Livro: #GIRLBOSS (#GIRLBOSS)

Autora: Sophia Amoruso

Tradutora: Ludimila Hashimoto

Editora: Pensamento-Cultrix Ltda. (1ªed. 2015 | 5ª reimpressão 2017)

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Adendo um: Assista a série da Netflix, livremente inspirada no livro e que teve a atriz Charlize Theron como produtora executiva.

Adendo dois: Ninguém está livre de ter de recomeçar. Nem a Sophia. Clique e leia o texto.

Livro do mês: Extraordinário

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O adjetivo que dá nome ao livro já seria suficiente para descrevê-lo.

Extraordinário, o primeiro livro da escritora R.J Palacio é sim extraordinário e nos mostra como uma vida pode afetar a vida de tantas outras, de maneiras diferentes.

August, ou Auggie, está prestes a começar a frequentar a escola pela primeira vez. Seria normal se ele não tivesse dez anos de idade. A demora em colocá-lo na escola foi por conta de uma deformidade que o menino tem no rosto. Assim que nascera, os pais perceberam que Auggie seria diferente das outras crianças e, por isso, preferiram protegê-lo, ao ensiná-lo em casa as disciplinas que a maioria aprende na escola.

Mas, o momento em que o livro se inicia é justamente este, de dar esta notícia, e August, cansado de perceber o que causava nas pessoas, não quis. Estava com medo.

Mas a família consegue convencê-lo e, mesmo com medo e receio, ele vai.

Começa aí, então, uma jornada em que August terá de enfrentar não apenas os seus medos e inseguranças, mas os dos outros também.

A forma de narrativa deste livro é deliciosa, por isso a leitura flui muito bem. Os capítulos são curtos e as histórias são contadas por diferentes pontos de vista. Além de August, também narram a história Via, sua irmã; Summer, sua primeira amiga; Jack, também um de seus primeiros amigos na escola; Justin, o namorado de Via; e Miranda, uma amiga da família, que vê no August um irmão.

É um livro emocionante, que mostra como as crianças podem ser más, mas as vezes até mesmo sem saber ou por sofrerem influência direta de seus pais.

É um livro lotado de referências à cultura pop, com trechos de músicas, falas de filmes, fantasias.

August consegue impor sua presença do seu jeito e aos poucos vai conquistando o respeito e o apoio dos estudantes da escola, principalmente após um acontecimento que muda definitivamente a relação dele com as demais crianças da escola.

É uma linda jornada. E August me fez pensar inúmeras vezes como somos maldosos enquanto estamos em grupo, mesmo não querendo. É o grande problema da “aceitação social”.

Este é o tipo de livro que precisa ser lido por todos os membros de uma família. Deveria ser lido nas escolas, os pais deveriam lê-lo aos filhos à noite.

Trata-se, no fim das contas, da gentileza que nos falta tantas vezes. O estar no lugar do outro. A empatia.

A gentileza também precisa ser ensinada e, acredito, a lição é aprendida por todos que passaram neste primeiro ano com August. Inclusive nós, meros leitores.

O livro ganhou adaptação cinematográfica e será lançado em novembro deste ano. O filme foi escrito e dirigido por Stephen Chbosky (que também dirigiu As vantagens de ser invisível ) e tem em seu elenco Julia RobertsOwen WilsonJacob TremblaySonia Braga.

Wonder é o título original deste best-seller, que não é apenas maravilhoso, é extraordinário.

E, para finalizar esta indicação, vos escrevo o melhor preceito que poderia ter após o encerramento desta leitura: Sejamos melhores aos outros. Isso nos fará bem!

Boa leitura!

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Livro: Extraordinário (Wonder)

Autora: R.J. Palacio

Tradutora: Rachel Agavino

Editora: Intrínseca (1ª ed./2012 | Brasil: 2013)

Livro: Trinta e Oito e Meio

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Trinta e oito e meio é o primeiro livro de Maria Ribeiro, e esta não é a primeira vez que falo dele por aqui.

Há pouco tempo sofri uma crise horrível. Acredito que este tipo de coisa deva acontecer com muitas pessoas. Mas, fiquei meio sem chão, meio sem vontade de fazer inúmeras coisas e apelidei este período de “inferno astral” por se tratar de um ínterim pré-aniversário. No meio do inferno eu me deparei com muitos pensamentos ruins, muita falta de vontade e motivação. Num dado momento percebi que precisava sair do lugar e, entre muitas reflexões, sentada no sofá da sala, olhando fixamente para a estante vi o 38e1/2 lá. E comecei a lê-lo novamente. E os textos abriram minha cabeça para várias coisas. E o livro me ajudou mais uma vez.

Clarice Lispector dizia que, se o mundo fosse justo, as mulheres teriam direito a três vidas: uma para se dedicarem ao amor, outra à profissão e, uma última, à maternidade. Eu incluiria ainda uma existência inteira pra ir ao cinema e outra para conhecer o mundo(…) (p. 35)

Não sei porque digo mais uma vez porque não me lembro se estava em crise quando o li pela primeira vez, mas eu sei que os textos dessa vez me fizeram refletir de uma forma diferente. Chorei lendo vários, me peguei rindo em outros, de outros eu nem me lembrava. Mas, uma coisa é certa: as crônicas escritas pela Maria Ribeiro, depois que entram em nossa vida, não devem sair nunca mais. Qualquer texto escrito por ela.

Este primeiro livro foi um compilado de textos publicados em revistas, como a TPM. Já li e reli todos os que encontrei por lá. Continuo a acompanhando quinzenalmente em sua coluna do jornal O Globo. E como são boas.

Eu não me orgulho do que vou dizer, mas não gosto do verão. Pior: eu temo o verão. E me sinto humilhada por ele, como se não estivesse à altura de sua leveza e descompromisso e tivesse que ser feliz num volume que não sou capaz.” (p. 91)

Enfim, voltando ao 38, é um livro em que Maria expõe sua vida sem medo, com uma narrativa deliciosa e, por meio destas coisas que conhecemos como palavras, ela fala de filhos, casamento, divórcio, separação dos pais, amizade e tem até pedido de perdão. Ah, sim, e tem Los Hermanos. Como se não bastasse, Maria Ribeiro também dirigiu um documentário sobre os quatro barbudos que mais amo na vida. Como não amar essa pessoa? Ah, sim. Além de escritora ela é atriz (louca pra assistir Como Nossos Pais) e diretora.

Eu fui tão amparada pelos Hermanos que quis fazer um filme, como se ingenuamente quisesse congelar todos os ideais românticos que fui abandonando pela estrada.

Talvez o apego aos grupos de nossa juventude represente um sentimento abstrato que ao passar dos anos vai roubando de cada um de nós: a possibilidade de ser tudo e fazer tudo, a vida inteira pela frente, o mistério do porvir.” (p. 105)

Por tudo isso, foi quase uma catarse ler este livro às vésperas de completar os trinta e quatro. E o assunto de idade tem sido recorrente aqui no blog, mas não é obsessão é tentativa de entendimento.

Hoje, aos 34, longe da angústia dos 20 e já sabendo CPF e identidade de cor, minha ambição é abrir espaço no HD, numa espécie de movimento anti-MST do que dos meus pais e irmãos  permanece em mim mesmo com prazo de validade vencido. Eu sem eles.” (p. 19)

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Quero ter coragem de deixar pra trás a juventude, e abrir de vez caminho para a maturidade, embora saiba que enquanto meus pais forem vivos continuarei um pouco criança (…) Quero filmar todos os dias que vivi e que não voltam mais. Quero filmar tudo.” (p.139)

Trinta e oito e meio me tirou do limbo dos maus pensamentos e me pôs num lugar confortável. Trinta e oito e meio é parte integrante e irremovível da minha cabeceira e está em meu kit de sobrevivência também, assim como os filmes da laís, los hermanos, pão de queijo quente e café fresco (ou um suco de limão gelado).

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Livro: Trinta e oito e meio

Autora: Maria Ribeiro

Editora: Língua Geral (1ª ed./2014)

Livro do mês: A revolução dos bichos

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A Revolução dos bichos é um livro de George Orwell, publicado originalmente em 1945. O livro foi rejeitado por inúmera editoras, pois os editores o viam como uma sátira ao stalinismo, o governo ditador e autoritário da antiga União Soviética, comandada por Josef Stalin.

Trata-se de um grupo de animais, que viviam na Granja do Solar, cujo dono era o senhor Jones. Pouco antes de morrer, Major, um dos porcos mais velhos da granja, convoca uma assembleia entre todos os animais que ali viviam e, logo ao início, Major lhes explica o motivo da reunião, que ocorria já em noite avançada no celeiro da granja:

Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade” (p.12)

Com esta fala, o velho Major, inicia a movimentação dos animais da futura “Granja dos Bichos”.

Para Major, com quem todos os bichos concordaram, o principal inimigo era o homem. Era o homem que tomava todas as decisões referentes à vida dos bichos, os alimentos e o trabalho. E, conforme disse:

O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais” (p.12)

O Homem não busca interesses que não os dele próprio. Que haja entre nós, animais, uma perfeita unidade, uma perfeita camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os animais são camaradas.” (p. 14)

A assembleia dos bichos ainda durou um pouco, encerrando-se com o canto do hino “Bichos da Inglaterra”, que acabou acordando Jones. Os animais aquietaram-se. Três dias depois o velho Major faleceu. Com sua morte, Bola-de-neve, o outro porco, tomou à frente das reuniões. Contra ele estava outro porco, Napoleão.

A partir deste momento começaria a organização dos bichos, que teve em sua atitude primária a expulsão dos humanos da granja tornando-a, então, a Granja dos Bichos.

O interessante deste livro, primeiro, é pensar numa revolução como esta. O que será que os animais, principalmente os escravizados pelo homem, fariam se pudessem ter força e inteligência suficientes para dominar o ser humano? Afinal de contas, são anos de repressão.

Outro ponto importante é como este grupo que, a princípio se uniu para um bem comum, acabou criando castas entre os “iguais”. Ali, na Granja dos Bichos, o seres superiores eram os porcos. Eles viviam na “Casa Grande”, deturpavam a verdade em favor próprio e criaram um “monstro” para que pudessem sempre ter algo com que amedrontar a população animal. Os porcos eram os mais inteligentes.

No fim das contas, a repressão e a escravidão continuaram. A marcante cena final, descrita no livro, quando todos os bichos da granja estão à espreita, observando o jantar que Napoleão oferece à alguns humanos e ficam confusos por não perceberem as diferenças entre um e outro, dá o tom real, e cruel, do quão o poder pode ser devastador.

Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quando ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez ; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” (p. 112)

Este livo deveria ser leitura obrigatória nas escolas do mundo todo. Eu digo isso porque demorei muito para lê-lo. É importante para que nós, seres humanos, consigamos entender a estrutura política e social em que vivemos e suas inúmeras estratificações. Não existem iguais, apensar de parecerem, sempre haverá um ser que sobressairá ao outro, que dominará o outro, seja com a força das mãos ou com a ideologia. E, caso o ser dominante consiga estes dois poderes, aí estaremos perdidos. E o máximo que conseguiremos é lutar pela queda dos que dominam.

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Livro: A Revolução dos Bichos (Animal Farm: A Fairy Story) 

Autor: George Orwell

Tradução: Heitor Aquino Ferreira

Editora: Companhia das Letras (45ª reimpressão/ 2007| 1ª ed./1945)