Dia 42

Eu sou desapegada.

Quer dizer, não dos meus livros, discos, séries, mas acho que sou, de certa forma, desapegada de pessoas.

Talvez, por isso, tenha perdido amizades

Mas, se as perdi, era porque no fundo não valia a pena, né?

E hoje tenho os amigos que deveria ter.

Eles me conhecem exatamente como sou e, acredito, me aceitam dessa forma.

Obrigada, aos que permanecem, mesmo em datas esporádicas, nesta nossa amizade sempre blindada pelas redes sociais.

Sad but true.

Voltando,

Eu sou egoísta?

Eu sempre preferi ficar sozinha.

Às vezes eu me impressiono que me casei.

Divido minha vida todos os dias com a mesma pessoa, que é muito diferente de mim.

Ele gosta de sol, calor, água, esportes, futebol na TV.

Eu gosto de chuva, frio, bicicleta ergométrica, séries e filmes no Cinema.

Por isso meu novo hábito é visitar as salas de tela grande sozinha.

Me concentro mais.

Mas, dizem, que os opostos se atraem.

Estamos seguindo.

E muito bem, na maioria das vezes.

Afinal de contas, gostamos de pizza, pão de queijo e filmes de terror.

Voltemos ao desapego.

Nunca fui muito de ligar, procurar, propor um jantar entre amigos.

Sempre tive, e ainda tenho, pânico das interações sociais.

No fim das contas, talvez, seja culpa da timidez.

Introspecção.

E, ainda, talvez, por isso, nunca tomei muitas iniciativas.

Apenas quando criança.

Mas criança é um ser isento e desprovido de qualquer radicalismo ou pretensão.

Elas apenas são.

Mas, depois de um tempo, apenas ser não é suficiente.

Ser.

Questão filosófica.

Uma das primeiras lições do curso de Comunicação é:

– Você só é depois que o outro lhe vê e refere-se a você.

Sad but true.

Ser apenas a partir do outro é uma triste sina.

Só existimos depois do primeiro tapa seguido de choro.

Choro.

A vida é só essa.

 

 

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Dia 41

Durante grande parte da minha vida eu nunca presenciei, ou sofri, algum tipo de preconceito. Quando falo preconceito refiro-me a cor da pele. Da minha pele, no caso.

Sou parda – mãe branca, pai negro.

Mas, de maneira velada, ele sempre existiu quando alguém sempre falava do meu cabelo ou quando se referiam a um serviço ruim como serviço de preto. Eu ouvia aquilo mas não dava importância.

Mais tarde, quando comecei a consumir mais produtos, ao entrar em determinadas lojas, os vendedores, em muitas vezes, não me atendiam. Pensava, antes, que talvez fosse por conta do movimento. Hoje, acredito muito que não era isso.

Quando entrei na faculdade, em 2003, ainda não havia reserva de cotas. Informei a verdade – parda – sem me preocupar se isso seria levado em consideração.

Passei no vestibular, fiz a faculdade, etc.

Talvez, por isso, torci o nariz quando começaram a brotar cotas para tudo e qualquer coisa. Achava desnecessário. E o pior, falava alto sobre isso, defendendo este ponto de vista. Era meu direito não concordar.

Enfim, hoje, tempos depois, me arrependo.

Me arrependo porque a segregação continua todos os dias e mais velada do que nunca. As pessoas, a maioria delas, se dizem sem preconceitos, mas essa não é uma verdade completa.

Eu costumo perceber o preconceito duas vezes: sou afro e mulher.

São muitos os olhares torcidos. Mas, eu nunca prestei muita atenção, para falar a verdade.

Prefiro relevar e passar por um dia mais leve.

Aí anteontem, na segunda, eis que brota em minha timeline do Twitter o tal do anúncio da Dove. Na altura em que o vi, já havia se proliferado.

Esta foi minha reação de imediato:

Achei de uma indelicadeza gigante, gritante.

E é muito isso, são tantas etapas até a produção ou a veiculação de uma publicidade que eu não sei como em pleno 2017 este tipo de coisa ainda aconteça. Como assim? Como uma negra ainda aceita este tipo de trabalho? Isso não deveria ser permitido, mas a escolha é de cada um. Eu demorei à entender a importância de falar sobre isso e abrir os olhos para isso.

leia o texto escrito pela modelo ou leia o texto publicado no G1

Mais tarde, li o texto que atriz norte-americana Danielle Brooks escreveu para a Lenny e continuei refletindo e isso me deu uma tristeza profunda. Talvez, neste tempo todo, o golpe sofrido pela Dove tenha servido para limpar meus olhos diante de tudo que tantas pessoas sofrem todos os dias. Minha pele, e a pele de tantas, não é suja. É disso que fala o texto de Brooks. Isso me lembrou daquela história de que Deus criou um lago para que os homens se lavassem e os brancos puderam usá-lo primeiro porque eram bons trabalhadores. Já os negros chegaram depois, foram considerados preguiçosos e, por isso, foram lavadas apenas as palmas das mãos e a sola dos pés. Sendo estes os únicos lugares “limpos” dos negros. (Assista este vídeo)

É triste. Muito triste.

Esta história toda chega a me dar um nó na garganta, é sério. Me senti ofendida.

Mas, a vida segue, um dia de cada vez. E a luta também, sempre.

abre-black-power-lise você souber de quem é a ilustração, me avise para creditá-la 🙂

Dia 40

Eu, ainda nulípara, aos 34, às vezes me canso de ser obrigada a responder questões referentes a herdeiros. Quando?

Eu, aos 34, às vezes me canso de ter de dar explicações a conhecidos e desconhecidos sobre decisões que caberia apenas a mim. E ao marido, no caso dos herdeiros.

Eu, aos 34, às vezes me pego pensando no que ainda não fiz e se o tempo me deixará cumprir o roteiro que carrego em pensamento. Será possível?

Eu, aos 34, imagino ainda ser possível conhecer ao menos as três cidades do mundo que sempre quis explorar. São de três diferentes continentes. Nada comparado a uma volta ao mundo. Mas mudaria o meu.

Ainda, nos próximos anos, me imagino num festival de rock e, numa dessas, já teria cumprido a visita numa das cidades dos sonhos.

Ainda, nos próximos anos, me imagino. Escrevendo, viajando, chorando ou talvez sorrindo.

Eu, aos 34, penso que a felicidade é algo mais simples quando nós a decidimos para nós mesmos. O peso que carregamos vem, muitas vezes, pelo peso que os outros depositam em nós.

Expectativas.

Eu, aos 34, quero ser apenas o que sou. Gostando apenas do que gosto. Evitando ver e falar sobre o que não me complementa.

Solar.

Eu, aos 34, posso parecer fútil, às vezes, por preferir bens culturais a tragédias.

De tragédias já bastam as minhas. O peso dos meus problemas só eu sei.

Cada um tem a vida que lhe é destinada. Uns sofrem mais que os outros.

Infelizmente, sina.

Eu, aos 34, estou aprendendo.

Respirar e viver.

Um dia de cada vez.

Dia 39

Fico muito feliz, muito mesmo, quando descubro, redescubro, me encontro com algo, dentre as coisas de que gosto, e que são realmente boas. Pode ser um texto, um filme, uma música, um disco. No primeiro final de semana do RIR eu me reencontrei com uma artista que me arrependo muito de não ter prestado atenção antes. Alicia Keys fez um show tão grande – e nem é por conta da grandiosidade do palco, mas pela grandiosidade da própria pessoa – que ela conseguiu me fazer me ver. A frase ficou estranha, mas o negócio é: eu me vi representada. Segunda vez neste ano.
Eu tenho um grupo restrito de personalidades femininas as quais admiro e recorro sempre que preciso, o que é praticamente todos os dias. Faziam parte, até este momento, Adele e Maria Ribeiro. E nesta semana coloquei neste mesmo potinho de inspirações a Alicia. Que mulher é esta? Que show foi aquele?

 (fotos: Divulgação)maria-ribeiro-li
Partindo do início, conheço a Maria desde o trabalho que ela fez em História Amor. Uma novela do Manuel Carlos, na Globo. Mas só comecei a prestar atenção quando a vi no Saia Justa. A partir daí descobri que ela também escrevia, aí me entreguei total, às verdades erros, acertos e tudo que ela nos oferece. O último presente que recebi, além dos textos quinzenais e uma curtida ou outra num tweet, foi a Rosa. Filme que emocionou não só a mim, mas parte do mundo que pôde assisti-lo. Aprendi muito. Me vi na tela de cinema. São tantos os nossos dilemas. E escrevo este texto às 4h da manhã de um domingo numa das semanas mais cansativas, lotada de trabalho. Fui me deitar devastada, mas o cansaço não me deixou descansar. Sigamos.

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Já Adele conheci muito por conta da morte da Amy. E tive o interesse de conhecê-la por causa de One and Only. Já escrevi isso aqui algumas vezes. Mas, apesar de ter escutado primeiro o 21, meu disco preferido da Adele é o 19. Nem tanto pelo refinamento técnico, talvez muito melhor nos dois seguintes, mas porque, na minha opinião, este é o disco mais verdadeiro. Não sei se verdadeiro é a palavra, mas ali a Adele está mais pura. Também não sei se esta é palavra, enfim. Neste disco vejo uma Adele que toca violão e baixo no palco, que se arrisca no rock da banda The Raconteurs. E era muito bom, menos grandioso. Soava mais verdadeiro. E o interessante que desde o início ela não quis se enquadrar num padrão. Foi seguindo e hoje é uma das maiores.

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Então,  eis que no dia 17 de Setembro de 2017, sentada no sofá, assistindo aos shows do RIR televisionados, pensando no dia em que eu poderei estar lá vivendo esta experiência, me surge Alicia Keys para me tirar do lugar. Foi impossível ficar desatenta quando ela pisou no palco e, como já disse, meu maior arrependimento foi não ter prestado atenção antes. Mas ainda bem que está em tempo.
Eu já havia lido sobre o manifesto da Alicia no ano passado, mas nem isso chamou minha atenção para as ações desta artista. O show serviu pra isso. Então, como todas as minhas obsessões, na segunda baixei todas as músicas possíveis, salvei todos os discos e criei playlist no Spotify. E fui conhecendo a artista e a mudança que ela deu em sua carreira. Here, o disco lançado por ela em 2016, depois de 4 anos, é um dos melhores discos que escutei nos últimos tempos. É de uma verdade. Aí ontem li o manifesto inteiro, na língua original que é pra testar se o estudo de inglês serviu pra alguma coisa, e serviu sim. E, por falar em manifesto, ele foi publicado na newsletter da Lena Dunham que eu assino a um tempo já (e vale muito a pena acompanhar). Enfim, quando escutei o disco novo, assisti aos vídeos, li o manifesto, assisti ao curta metragem, ao trailer de um documentário que ela fez sobre as crianças com AIDS na África, jogou luz sobre a questão dos refugiados e juntei tudo isso ao maior protesto político que aconteceu no palco mundo no primeiro fim de semana, e que deu resultado, tive a certeza de que nunca mais ela sairia do meu campo de observação. Ela convidou a maior liderança indígena do país para fazer um discurso em favor da Amazônia. Isso é de uma generosidade e humanidade sem tamanho.x71720273_RI-Rio-de-Janeiro17-09-2Alicia-Keyes-Sonia-Guajajara-li
Alicia se despiu. Resolveu ser ela sem as máscaras concedidas pela indústria. Resolveu assumir o cabelo e sua natureza. Toda pessoa afrodescendente passa pelo dilema do cabelo ao menos uma vez na vida e comigo não foi diferente. Quando vejo fotos da época em que meu cabelo estava liso eu não me vejo. É feio.
Acho importante nos inspiramos em pessoas que realmente valham a pena e estou muito feliz com as pessoas que acompanho até então. As três, hoje, são as principais, são muitas as que vejo, ouço e leio no meu dia a dia e que também me inspiram.
Vamos nos olhar. Vamos ser luz para as outras, para os outros. Assim, acredito, as pessoas vão melhorando, mesmo que aos poucos. Espero.

Dia 36

O filme que assisti no sábado ainda reverbera.

O sentimento não cessa, e isso me deixa calma, de certa forma.

Me deixa feliz em saber que posso depositar o fio de esperança que ainda me resta nas coisas que gosto: nos filmes, nas músicas, nos livros e em algumas poucas pessoas.

Isso tudo tem sido um refúgio e um acalanto pro coração.

Hoje é uma quarta boa, porque tem texto de uma pessoa que eu admiro há bastante tempo, mas que agora admiro em proporções maiores e estas quartas, quando tem textos dela, me deixam mais feliz, é quase uma meta, chegar bem até quarta para viver mais uma linda experiência em forma de texto.

Quem me acompanha com mais cuidado sabe de quem estou falando.

Mais um dia, mais um dia.

Um dia bom.

Dia 34

Estou às vésperas de um grande encontro.

Minha turma de faculdade vai se encontrar neste fim de semana. Em janeiro de 2018 completamos 10 anos de formatura. 10 anos. É muito tempo.

E eu pude perceber o quanto é muito tempo quando estava selecionando umas fotos para um banner que estará em algum lugar do sítio, onde passaremos o final de semana.

Quer dizer, eu vou só no sábado, mas vocês entenderam, né?

Enfim, no meio da escolha das fotos eu me vi em algumas de mais de 10 anos e, nossa, como eu era diferente. Digo, fisicamente.

Emocionalmente também, mas fisicamente eu tinha a aparência frágil. Não que eu ainda não tenha, mas hoje tenho mais gorduras, se é que vocês me entendem.

Nas minhas contas, foi  quase um quilo por ano de formatura e isso me deixa tão triste, mas tão triste, que me dá vontade de me esconder. Mas o que eu deveria fazer mesmo é correr, né?

Mas, o pior de tudo é que eu não sou o tipo de pessoa compulsiva. Eu engordei cerca de sete quilos depois de uma mudança do remédio que eu tomava.

O médico me garantiu que a fórmula e as reações do meu corpo seriam as mesmas, mas não foram. A piora veio em 2015, este foi o ano que eu mais ganhei peso. Principalmente na virada para 2016. Eu até consegui baixar a média para seis, mais nunca mais voltei ao que era.

E eu me olhando nas fotos, magra, sorridente, me sinto um pouco constrangida de pensar que vou me encontrar com todas, ou a maioria, daquelas pessoas de 10 anos atrás e imaginar o que elas vão pensar?

Eu não estou obesa, ok? Pratico atividade física pelo menos três vezes por semana, tenho uma alimentação balanceada, como pão de queijo de vez em quando (lógico), mas não perco o controle. Mas a barriga não diminui. E chega a ser engraçado, mas estou usando um número a mais.

Enfim, nós mudamos, né? A vida muda o tempo todo, mas fiquei em choque, mas ao mesmo tempo fiquei feliz por ter passado tanto tempo. Agora, neste fim de semana poderemos compartilhar o que a vida reservou para cada um de nós, que éramos lotados de sonhos. Alguns já casados, com filhos e muitas histórias.

Tá bom, tô respirando. A ansiedade já passou.

Dia 33

Fico pensando: qual é o momento em que nos tornamos adultos? Existe um episódio épico, uma porta mágica, uma rua ou uma fresta que nos faça entrar neste período e termos a certeza? Biologicamente, dizem, é a pessoa que atingiu sua capacidade reprodutiva. Eu pensei que era por volta dos 25 e que antes disso era considerado “jovem”. Apenas jovem, estes seres superiores que podem ler livros como a culpa é das estrelas sem culpa. Muito interessante. Mas, nós que já atingimos quase dez anos desta meta, ainda continuamos nos perguntando: quando?

Eu, falando na primeira pessoa do pural, não sei porque. Voltemos, ou melhor, voltarei a reflexão anterior: quando eu percebi que já era adulta? Acho que os primórdios desta sensação veio quando passei no vestibular, aos 18 ou 19, e percebi que não tinha um centavo pra fazer faculdade e universidade pública em minha cidade ainda era promessa política.

Fui com a cara e a coragem e consegui a grana pra matrícula, a fiz e comecei o curso de Jornalismo. Quando o primeiro boleto chegou percebi o tamanho do compromisso. Primeiro indício.

Hoje, olhando pra trás, devo agradecer aos trabalhos difíceis, mas importantes, que me fizeram chegar onde estou hoje: balconista/vendedora de discos e caixa de padaria. Não menosprezo de maneira alguma estas profissões, pelo contrário, as respeito e agradeço. Mas agradeço principalmente por já terem passado. O período no qual estive nestas funções foi um dos mais árduos e difíceis. Era o início da minha “adultice” e eu nem imaginava.

O tempo passou e eu vivendo minhas ilusões e criando amigos imaginários, ouvindo músicas tristes e românticas e escrevendo neste local para vocês, meus queridos cinco ou dez leitores. Prefiro pensar que são oito por mero acaso. Oito é o número da minha vida, mas não quero me perder do assunto principal que é crescer.

Outros indícios são família, casamento, casa, cuidado, responsabilidade. A vida adulta nos exige muito, mas acho justo. É justo cobrar pela liberdade, mesmo que forjada.

Crescer dói, mas é bom, muito bom. Mesmo com as amarras criadas pelo tempo.

Há oito dias cresci mais um pouco. No último dia oito completei trinta e quatro. E assim a vida passa, evolui e as coisas tendem a acontecer e a continuarem evoluindo. Não tem como fugir da realidade, já sou crescida o suficiente para saber disso, mas também não quero me forçar a fazer o que não quero. Faz sentido? Espero que sim.

Continuo gostando de filmes, músicas, séries, livros (meu último hábito e maior amor) e escrevendo também.

Escrever me liberta a alma e as amarras impostas pela dureza da vida adulta, que tende a ser mais leve conforme nos permitimos. Um ótimo hábito que quero ter aos trinta e quatro: ir ao cinema comigo. Sim. Este foi meu presente de aniversário para a mulher que acabara de completar trinta e quatro e que não começou o dia dos trinta e quatro muito bem. Aquela tela imensa logo a frente. Num canto água, noutro pipoca e chocolate, e uma boa história. Fui feliz naquela tarde. Não há tempo a ser perdido.

A vida começa em nosso primeiro suspiro. E devemos seguir.