Dia 33

Fico pensando: qual é o momento em que nos tornamos adultos? Existe um episódio épico, uma porta mágica, uma rua ou uma fresta que nos faça entrar neste período e termos a certeza? Biologicamente, dizem, é a pessoa que atingiu sua capacidade reprodutiva. Eu pensei que era por volta dos 25 e que antes disso era considerado “jovem”. Apenas jovem, estes seres superiores que podem ler livros como a culpa é das estrelas sem culpa. Muito interessante. Mas, nós que já atingimos quase dez anos desta meta, ainda continuamos nos perguntando: quando?

Eu, falando na primeira pessoa do pural, não sei porque. Voltemos, ou melhor, voltarei a reflexão anterior: quando eu percebi que já era adulta? Acho que os primórdios desta sensação veio quando passei no vestibular, aos 18 ou 19, e percebi que não tinha um centavo pra fazer faculdade e universidade pública em minha cidade ainda era promessa política.

Fui com a cara e a coragem e consegui a grana pra matrícula, a fiz e comecei o curso de Jornalismo. Quando o primeiro boleto chegou percebi o tamanho do compromisso. Primeiro indício.

Hoje, olhando pra trás, devo agradecer aos trabalhos difíceis, mas importantes, que me fizeram chegar onde estou hoje: balconista/vendedora de discos e caixa de padaria. Não menosprezo de maneira alguma estas profissões, pelo contrário, as respeito e agradeço. Mas agradeço principalmente por já terem passado. O período no qual estive nestas funções foi um dos mais árduos e difíceis. Era o início da minha “adultice” e eu nem imaginava.

O tempo passou e eu vivendo minhas ilusões e criando amigos imaginários, ouvindo músicas tristes e românticas e escrevendo neste local para vocês, meus queridos cinco ou dez leitores. Prefiro pensar que são oito por mero acaso. Oito é o número da minha vida, mas não quero me perder do assunto principal que é crescer.

Outros indícios são família, casamento, casa, cuidado, responsabilidade. A vida adulta nos exige muito, mas acho justo. É justo cobrar pela liberdade, mesmo que forjada.

Crescer dói, mas é bom, muito bom. Mesmo com as amarras criadas pelo tempo.

Há oito dias cresci mais um pouco. No último dia oito completei trinta e quatro. E assim a vida passa, evolui e as coisas tendem a acontecer e a continuarem evoluindo. Não tem como fugir da realidade, já sou crescida o suficiente para saber disso, mas também não quero me forçar a fazer o que não quero. Faz sentido? Espero que sim.

Continuo gostando de filmes, músicas, séries, livros (meu último hábito e maior amor) e escrevendo também.

Escrever me liberta a alma e as amarras impostas pela dureza da vida adulta, que tende a ser mais leve conforme nos permitimos. Um ótimo hábito que quero ter aos trinta e quatro: ir ao cinema comigo. Sim. Este foi meu presente de aniversário para a mulher que acabara de completar trinta e quatro e que não começou o dia dos trinta e quatro muito bem. Aquela tela imensa logo a frente. Num canto água, noutro pipoca e chocolate, e uma boa história. Fui feliz naquela tarde. Não há tempo a ser perdido.

A vida começa em nosso primeiro suspiro. E devemos seguir.

 

Dia 32

Na verdade deveria ser 34.

Não dias, anos.

Ontem.

Às 9h da manhã, 34.

34.

Já vejo marcas aparecerem.

Linhas de expressão marcarem o tempo.

Que marca.

Marca cada passo, mesmo descompassado.

Cada linha.

Reta. Torta. Linha.

34.

trinta e quatro.

Ouço ressoar e, no fim das contas, foi só mais um dia.

Que me acrescentou tempo.

Ou me tirou?

– Um dia a mais, é um a menos.

Ouvi isso em algum lugar, não consigo me lembrar.

O tempo.

Acréscimo de memória.

Da perda.

34.

Que venha o próximo.

 

Dia 31

Vejo o sol lá longe, entrando pela fresca que foi aberta na cortina pelo vento fraco da manhã. Esta mesma luz, da manhã fria de inverno, me aquece e me faz ver que há sim o que podemos chamar de esperança. Apesar do caos externalizado, as vezes no silêncio da alma é possível encontrar um pouco de conforto. Conforto que encontro no café quente e no pão de queijo quentinho; ou num livro que reli recentemente e que acalmou me coração; ou ainda descobrindo novas músicas. Um dia por vez.

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ilustração: troche

Dia 30

 

Astronauta de la nada001 - loucuras-troche

ilustração: troche

 

O que sentimos durante esta jornada diária vem em ondas. Acho que o Lulu Santos já cantou isso, “num indo e vindo infinito”.

Temos dias bons, dias ruins, dias péssimos, dias ok. Meus melhores dias são os cinzas. Quando digo “cinzas”, não quero dizer triste, quero dizer frios, de inverno. São os dias mais aconchegantes. Meu Dia 29 assustou minha irmã. Ela disse que foi muito depressivo aquele texto. Eu não achei. E aí perguntei: você acompanha meu blog mesmo? E ela disse, – sim. A maioria dos meus textos tem uma ponta de melancolia, mas não é forçação de barra, sou eu. O que posso fazer? – Terapia, ela disse. Ok. Ok.

Acredito muito nos opostos. Todo sentimento tem o seu antagonista. Para haver paz, é preciso guerra; para haver amor, é preciso ódio; para haver felicidade, é preciso a tristeza.

Prefiro viver com um pé atrás, pisando em ovos, do que ter certeza absoluta da felicidade, do amor ou do que quer que seja, e me frustrar depois. A bem da verdade vamos nos frustrar de qualquer forma. Pode parecer loucura. Tem pessoas que preferem viver no limite da adrenalina, das sensações mais à flor da pele, eu não.

Por enquanto, vivo bem com meus demônios, e consigo controlá-los, apesar deles quase me destruírem, as vezes. Quem sabe a terapia?

Mas, me perdoa, irmã, ainda sinto um pouquinho de medo. Assim, como disse Cazuza, tenho medo de fazer terapia e perder a inspiração. Seja lá o que isso possa significar.

 

 

Dia 29

O frio na barriga só aumenta, e nem é por causa do inverno. Daqui há exatos 21 dias completo mais um ano. E, sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim. Sempre quando chega neste momento de quase aniversário eu entro em pânico. No fim das contas eu não gosto muito. Primeiro, porque quando eu era mais nova quase ninguém se lembrava, o que era deprimente. Agora, poucos ainda se lembram de fato e as redes sociais, o Facebook, até ajuda, mas é tudo muito artificial, no fim das contas.

E ainda no fim das contas, prefiro aqueles poucos que sabem de verdade o que representa o dia 8 de agosto para mim. Talvez ninguém saiba, na verdade.

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Ilustração: Troche

Minha cabeça é um vulcão, uma loucura. Lotada de velhas ideias, louca para colocar em prática novas coisas. Mas, no fim das contas, nunca saio do lugar. Criei um mundo perfeito onde vivo da maneira que quero, como quero e com as pessoas que quero. Isso beira a esquizofrenia e me dá medo de ir e nunca mais sair desse buraco. Tipo o filme “A Origem”. E ficar presa eternamente num buraco negro não é bem o que quero.

Enfim, e ainda mais enfim, acho que tenho muita coisa a conquistar ainda, mas o problema é que o tempo não para e em muitas vezes eu fico pensando, se houverem outras vidas e estivermos de fato evoluindo na medida em que estas camadas de vida avançam, como será a minha próxima?

Não, eu não tô falando de morte, apesar de saber que isso mais cedo ou mais tarde chega, eu tô falando é de recomeço mesmo e de conseguir fazer, em nosso tempo, tudo o que almejamos.

A esta altura do texto eu não sei sinceramente quem está falando. Se sou eu, se é minha loucura ou é meu inferno astral que a cada dia grita mais alto em meus ouvidos.

E eu só quero que dia oito chegue logo, e passe logo.

10 anos de loucuras

facebook

10 anos! 10!

É meio clichê, talvez, começar um post assim desse jeito, mas nunca pensei que este projeto pessoal pudesse durar tanto tempo.

Antes do Loucuras, tive um outro blog, o Vitrola. É bem provável que eu já tenha falado dele em algum momento por aqui, mas não me lembro onde nem quando. Enfim, o Loucuras Intrépidas surgiu da minha necessidade de escrever as coisas que sempre passavam, a ainda passam, em minha cabeça.

Eu comecei escrevendo textos curtos, pequenas poesias, palavras que saiam lá do fundo, muitas vezes tristes, outras um pouco mais leves, mas sempre muito de mim esteve presente em cada palavra escrita. Hoje, escrevo sobre outras paixões: música, cinema, série, livros e continuo escrevendo sobre mim, mas com menos profundidade, não sei porque. Talvez seja a vida adulta me avisando que os impulsos muitas vezes precisam ser controlados. Será?

Comecei o blog utilizando a plataforma blogspot e ele ainda existe por lá. Mas, em 2014, resolvi me dedicar ainda mais ao blog e migrei para o wordpress, que fez com que ele ficasse mais bonitinho. Antes, eu mesma criava as artes e, a partir da migração, contratei uma agência que me ajuda sempre que preciso, e que produziu a nova logo, ou melhor, a logo do Loucuras Intrépidas. Muito obrigada, Agência Pássaro.

Outros parceiros também foram importantes, como o blog Par de Copas ❤ e o Pipoca de Ouro. Com o último, produzi o curta-metragem Carona, um marco muito importante para mim, Isabella, e também para estes 10 anos do blog.

Outro momento muito importante para o blog foi com a Banda Jokie. O Erik, então vocalista da banda, viu num dos meus textos uma possível música. E não é que ele conseguiu e transformou aquelas poucas linhas? E este mesmo poema me deu outra alegria: foi selecionado pelo Concurso Nacional Novos Poetas 2016, entre mais de duas mil inscrições. Sonhos ao acaso prova que, se as palavras escritas são verdadeiras, elas podem alcançar o infinito.

Enfim, me emociono muito em poder comemorar este momento, que é muito importante para mim, e apenas para mim, talvez, mas isso é mais do que o suficiente.

Eu, há dez anos, tinha 23, às vésperas de completar 24, e quase me formando em Jornalismo. Hoje,  às vésperas de completar 34, ainda me pego sonhando acordada. Que bom que isso é possível. O sonho, a imaginação, a vontade me move, mesmo que seja dentro do meu infinito particular.

Aos que leem as linhas que escrevo, muito obrigada!

O blog continua, é claro, e espero poder comemorar vários aniversários!

Beijos, abraços, afagos e até breve! 🙂

Dia 28

gosto de inverno, frio, café com leite e pão de queijo.

na verdade gosto mais de suco de limão, mas no inverno é melhor tomar algo quentinho e, como ainda não inventaram um suco de limão quentinho (eu desconheço, me desculpe caso haja) eu tô preferindo café com leite.

inverno é a melhor estação e minha casa é o melhor lugar para se estar no inverno.

se tem uma coisa que eu amo é ficar em casa, cuidando das plantas e vendo o Tico louco ou dormindo. Ele é muito fofo. Unindo estas duas coisas, resolvi gravar um vídeo numa manhã de inverno qualquer.

o frio me acalma e, por mais estranho que possa parecer, me aquece a alma.

🙂

Dia 27

este dia estava no rascunho. estava porque já passou. escrevo este texto quase uma semana depois e minto pra você, publicando-o no mesmo dia que deveria ter sido postado originalmente. pode parecer confuso mas é bem fácil de entender: as pessoas mentem. e, quando criança, minha mãe dizia que mentira tem perna curta. não sei se tem, mas, se descoberta, fere. e como fere. se não dita, dói mais ainda, porque numa hora ou noutra, acabamos nos deparamos com ela. principalmente se a mentira foi dita diante do espelho.

dia normais.

Ventana a la ciudad-LI

dia 26

Tratar do empoderamento feminino me pareceu muitas vezes desnecessário e um saco. Bem como lutar por igualdade entre brancos, negros, amarelos e afins. Nunca gostei de movimentos. Eu, como mulher e parda (minha mãe é branca e meu pai é negro) nunca sofri claramente discriminação por ser uma coisa ou outra. Sempre fiz o que deveria fazer sem prestar atenção nas nuances, nos olhares das pessoas. Sempre procurei refúgio nas artes e nas palavras. Sempre me encontrei em algumas delas.

Mas, voltando ao início, ser mulher é, de fato, difícil e doloroso. Precisamos provar o tempo todo a que viemos e isso é cansativo. Confesso que comecei a prestar atenção nestas nuances há pouco tempo e há pouco tempo venho amadurecendo a ideia de que para pedir igualdade de gênero não precisa necessariamente sair às ruas com seios a mostra ou passar batom vermelho. O negócio é não baixar a cabeça em nenhuma das circunstâncias. Seja para o chefe, marido, namorado, mãe, pai, família, amigos. Precisa ser honesta com o que quer e respeitar as escolhas dos outros.

Hoje, com quase 34 anos (faltam 43 dias) percebo que ainda tenho uma longa jornada para o entendimento. Mas o caminho é este mesmo.

 

Dia 25

25º semana do ano.

172º dia do ano.

1º dia do inverno.

inverno: a melhor estação do ano.

ano: 4 repetições.

está sentindo o cheiro de neve?”

                                          Gilmore, Lorelai

momento de usar as melhores roupas, comer a melhores comidas e assistir aos melhores filmes, coberto pelos melhores edredons, colchas ou afins.

época de chocolate quente, canjica e caldo de feijão.

sopa de letrinhas, de batatas ou qualquer sopa. sendo quente, qualquer uma serve.

época de demorar o abraço e se enrolar em laços que não precisam ser interrompidos por transpirações prolongadas.

enfim, a melhor época do ano.

época de maior contato.

época que o amor transborda, quentinho.